quinta-feira, novembro 10, 2011

A polpa da questão...

Grande brado tem sido gerado à roda da publicação da antologia Pulp Fiction Portuguesa, organizada por Luís Filipe Silva. Esse grito, particularmente lancinante certamente por ecoar num relativo vazio, tem variações que vão do deslumbramento pelo cuidado e riqueza do design ao escândalo pela insistência na mistificação da origem dos contos incluídos.


Tornemos as coisas claras: A Pulp Fiction Portuguesa é um projecto que deriva de um concurso literário lançado pela Editora Saída de Emergência no início de 2008. Depois, mediante o atraso que o projecto sofreu (de 2009 a 2011), e as consecutivas datas de publicação anunciadas e falhadas, a antologia tornou-se uma espécie de running joke do meio, daí que o seu estatuto de ficção não terá surpreendido ninguém que acompanhe minimamente o meio do Fantástico em Portugal.

Para além disso, folheando o livro, surge evidente o seu carácter de ficção logo na ficha técnica. O tamanho de fonte é particularmente aumentado nesse disclaimer, fazendo-o saltar à vista. Ou seja, leitores que se sintam "enganados", só mesmo os que nunca leram o livro. E mesmo que o lessem, acreditando piamente na sua "verosimilhança", existem embustes compensadores, ou não?

Maior problema terá sido então o press-release, e a divulgação da antologia entre os profissionais da imprensa. Provavelmente teria sido mais lógico denunciar a verdadeira essência da antologia, e pedir a colaboração dos jornalistas para adensar esta estratégia de marketing. Apesar de mais lógico, concordo que provavelmente o resultado não fosse tão apelativo como aquele conseguido. Certamente nem todos teriam a habilidade de Rogério Casanova, do Público.
Assim, haverá que honrar a editora; por ter criado uma "embalagem" (e porque não dizer, uma "filosofia") atraente para algo que à partida não seria tão apelativo. Realmente, não deverá ser fácil vender, aos olhos do leitor/comprador, uma literatura de aventuras com fama de fraca do ponto de vista literário, ainda mais quando escrita na actualidade, ou seja, apesar de mais competente, sem a aura dourada da nostalgia. Do passar do tempo que nos faz menosprezar defeitos e assoberbar predicados.
Aliás, se olharmos à volta (como, por exemplo, aqui, a partir do minuto 17), será fácil encontrarmos outros exemplos de como essa estratégia tenta ser essencial hoje em dia, tirando partido das fragilidades da presente Informação, potenciando o valor intrínseco do produto.

Mas, como tudo acaba bem quando termina bem, agora que se cavalga na onda da atenção popular (como muito se adequa à pulp), já podemos todos rir e bater nas costas uns dos outros, cientes que os verdadeiros tesouros nem sempre têm um grande X pintado em cima. E que o momento da descoberta pode (deve!) ser grande parte da emoção.
Portanto, apesar de finalmente assumido publicamente, façamos todos de conta, ao ler a Pulp Fiction (à) Portuguesa que ela realmente viajou até nós, 60-70 anos, no fundo de um baú, e não estaremos a perder o nosso tempo.
No final, discuta-se o conteúdo da obra, mais do que o seu "pacote". A efabulação mais do que o golpe publicitário.

E, para terminar, levando a coisa para o ridículo, não deixa de ser curioso numa terra onde se morre à fome com falta de bifes (vá, sigam a analogia, fraca mas bem intencionada), quando surge um filé-mignon destes há quem o deixe esfriar (e sopre no dos outros) enquanto barafusta pela dose de batatas fritas e quetchup que bem podia ter vindo com o prato...

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